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Épocas do ano

Páscoa

Poema da Eternidade

Quando quiseres ser alguém,
Alguém que valha a pena notar,
Seja aquele que vive o hoje.
Não olhes para trás tentando refazer
Os caminhos já desviados.
Nem queiras supor o amanhã
Para tentar desvendar o que dele virá.
Vive o agora e olha o "em torno".
Percebe de onde vem a dor do mundo,
Que isso é o que importa.
E deixa fluir de ti
A Esperança que conduzirá à cura.
Não sejas um obstáculo aos sonhos
Mas uma ponte para a imaginação.
E assim teu tempo será ilimitado.
Pressentirás as origens e o fim,
Sem medo, sem culpa, sem dor.
E estarás vivendo
Unicamente o Hoje.
E ao vivê-lo cuida para que,
Acima de tudo,
Não queiras imortalizar tua passagem.
Deixa que ela se dilua,
Nas pequenas coisas da vida como um olhar, um sorriso, um afago.
Que tua passagem possa ser apagada rapidamente,
Como se apagam as marcas na areia.
Pois o que ficará de tí,
Já ficou impresso nas almas
dos que te cercavam.
E esses levarão a outrem
O que deixaste impregnado.
O mesmo sorriso, o gesto de amor e atenção,
O afago.
E essa marca de amor, que se conduz pelas pessoas,
É a tua eternidade.

                        Cecília bonna

Domingo de Ramos

Muito tempo atrás, um burrinho bem velhinho começou a lembrar-se de tudo que havia feito na sua vida; e como havia um burrinho jovem ao seu lado, começou a contar-lhe todas as suas vivências. Contou-lhe das pessoas que ajudara, dos donos que o haviam maltratado, exagerando no peso da carga que colocavam sobre seu lombo; de outros que o trataram com carinho, especialmente algumas crianças...
Mas o que ele mais gostou de lembrar e contar ao jovem burro, foi o tempo em que ele ajudou Maria e José e o menino Jesus a fugirem para o Egito. A lembrança da voz doce de Maria e da luz que o menino emanara enchera novamente o seu coração de alegria e gratidão...
O jovem burrinho que ouvia aquilo tudo, cheio de admiração pelo que o outro lhe contara, ficou com muita vontade de ajudar os homens também e mostrar que todos os burros eram trabalhadores e muito dignos.
Estando os dois por um momento em silêncio, olhando para a relva verde que se estendia na sua frente, eis que chega um homem com ar um tanto preocupado, e uma corda na mão. Amarrou a corda no pescoço do burrinho jovem e levou-o para onde estavam vários homens reunidos.
Um deles sentou-se em seu lombo e o burrinho carregou-o para dentro da cidade de Jerusalém. Mas como ficou surpreso e feliz ao perceber que o homem que carregava era Jesus, o mesmo que o burrinho, já tão velho, havia carregado como neném!
As pessoas cantavam, estendendo ramos verdes e folhas de palmeiras nas ruas, acenando para Jesus. Era uma enorme festa, e o burrinho sabia que essa honra seria guardada no seu coração para sempre e também na memória de todos os homens na terra.

                       Ana Cecília de B. Osterront e Karin E. Stasch
                       Do livro “As três coroas - lendas, contos e poesias para a Páscoa”, compilado por Karin E. Stasch

Primavera

Antes do teu olhar, não era,
Nem será depois- primavera.

Pois viemos do que perdura,
Não do que fomos. Desse acaso
Do que foi visto e amado- o prazo
Do Criador na criatura...

Não sou eu. Mas sim o perfume
Que em ti me conserva e resume
O resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia
Há mais sonho e sabedoria
Que nos vagos séculos do homem.

                        Cecilia Meireles


Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
Lavadeiras e passarinhos,
Ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra esse caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
Uma estátua da Primavera?
Quem me compra esse formigueiro?
E este sapo que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
Este é o meu leilão?

                        Cecilia Meireles